Nota introdutória: O conceito de antropofagia, a metáfora gástrica de Osvaldo de Andrade ainda nos é muito sensível. Inspirado em seu manifesto escrevo esse “quase” manifesto.
Pensando a filosofia pós-colonialista na América latina não na perspectiva somente de sua produção propriamente dita, mais, as características próprias do terreno subjetivo onde se realiza esse pensamento, a imagem de pensamento. Quando vemos as relações que as populações latinas americanas estabelecem com seus pensadores vemos uma distinção tão profunda que nos instiga uma pergunta; O Brasil é um país latino americano? O que significa isso aqui, “latino americano”? Como o pensador brasileiro se identifica com esse termo, como o brasileiro se identifica com esse termo?
Os territórios; de onde se originam de onde falam a média da produção filosófica brasileira dita, “acadêmica”. Sempre ocupam uma posição subalternidade; carregam um ar de; _ também quero ser moderno! Ou; _não sou um bárbaro, um índio, ou um negro! Tenho modos, posso falar! Ainda vive em mim uma europeidade, um ar branco racional o qual me permite o verdadeiro exercício do pensamento.
Essa produção “média” não se coloca na perspectiva de um pensamento que da continuidade a um outro, ou o comentador que traz uma nova interpretação para um conceito de algum autor famoso, não, ela alcança o cumulo da mediocridade e se coloca como a simples demonstração do entendimento da obra, pelo autor do comentário.
O:
_ eu entendi!
Da produção filosófica brasileira tem sempre um ar de resenha.
Não estamos nem nunca estaremos inseridos na falação do cânone. Aqui o cânone no máximo é totem! Um talismã civilizatório. * Vemos vários totens no hall de entrada do departamento de filosofia da universidade de Brasília. Dentro da academia no Brasil temos aqueles “professores cabeças de totem”. Quem fala por esses professores é um tipo de “ente” místico filosófico. Um Kant, por exemplo. E ele professor, um tipo de pajé convertido que tem o poder de conectar nossas primitivas mentes ao elevado pensamento europeu somente ele pode guiar seus pupilos nos montanhosos pensamentos, e nos tirar da savana do cerrado plano das arvores pequenas tortas.
A lógica é tão popular nos departamentos de filosofia do Brasil e seus agrupamentos tão hierarquizados que se assemelham os grupos místicos. E de fato a lógica é apresentada aos calouros de filosofia, sua demonstração e resolução, como a grande verdade do pensamento, passada somente a eles escolhidos e iniciados. Estes por sua vez muitas vezes tornam-se missionários jesuítas proclamadores da verdade do pensamento, lógica e catequese. Os departamentos de filosofia do Brasil estão dominados por padres
Por vezes, literalmente.
Esse quadro da academia é de se esperar, visto a posição social que o pensador em geral se encontra no Brasil. O Brasil como se diz é um país de trabalhadores, e claro como todo bom trabalhador odiamos o trabalho, mas somos todos “eiros” assim como somos os brasileiros somos pedreiros padeiros carpinteiros, não chegamos a ser pensadores somos no máximo, “pensadeiros”! Artesãos da doxa, pagos para pensar aquilo que nos é determinado ou para soar melhor “encomendado”.
O poder no Brasil tem sempre os seus “pensadeiros” de plantão. Prontos para dar sua opinião pronta para a população, sempre aonde os fatos por si só podem estimular a indagação. Vomitando nos jornais, revistas, rádios, TVs, roteiros em geral.
O pensador é conhecido como “intelectual” no Brasil, ele tem que ocupar alguma posição influente para obter algum “crédito”. Não é admirado propriamente por suas idéias mais pela quantidade de conhecimento que ele consegue articular, isso dentro do seu meio intelectualizado.
Agora, ser um livre pensador é sinônimo de ser Vagabundo ou Maluco, com todo respeito aos dois termos. No entanto até mesmo o cargo de professor universitário ocupado pelos padres é visto com desprezo pela população.
As condições climáticas do território brasileiro sempre foram favoráveis à miscigenação e a deglutição. Muita comida pesada no estomago, sono e sexo. Aqui os povos se deglutiram se misturaram, esquecimento e invenção.
O brasileiro, esse monstro glutão devorador das subjetividades pronto para deglutir tudo que se apresenta, já há muito tempo sofre um processo de domestificação, é uma besta no cárcere alimentada à base de ração processada industrial. O Canibal come para participar do ser da sua comida e este tem sido o problema.
A imagem, de um “Filosofo”, mesmo para os acadêmicos é uma imagem e um território existencial distante e desterritorializado, ao responder para qualquer um na rua que lhe pergunte qual a sua ocupação, por: _Ah! Eu sou um filosofo! Quase sempre será acompanhada de um estranhamento quase cômico.
No entanto estamos ai, existem os cursos de filosofia, filosofia volta a ser matéria nos colégios, crepúsculo dos ídolos é matéria no vestibular.
Talvez o espaço para a filosofia realmente se desenvolver no Brasil seja sobre uma outra roupagem até um outro nome que não, “filosofia”. Quem sabe até em outra mídia talvez, resgatar a oralidade mítica dos indígenas, que consegue sintetizar tantas coisas com imagens tão simples.
Mas o cânone está ai. É comida e esta na mesa, e querendo ou não ele nos oferece uma diversidade bastante agradável de paladares. Não podemos ser parasitadas, devorados por dentro pelo cânone precisamos de uma simbiose, uma miscigenação intelectual perversa. Poder oferecer melhores sabores, mais acessíveis aos que estão sedentos por estes. Comer o cânone, não ser comido por ele, coloca-lo numa posição passiva, de ladinho.. talvez... Ele não pode ser sempre o alvo, o foco do pensamento. Muito menos da produção. Contra aquela voz culpabilizadora que sempre cobra por um eterno tom de seriedade ao se tratar de filosofia e que sempre se pergunta: _O que estou fazendo, é realmente filosofia?